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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Pantanal é mais importante do que você imagina


Quando se fala em Pantanal, normalmente a imagem que se tem é de uma região longínqua e alagada repleta de rios com jacarés, ariranhas, e até mesmo sucuris. Porém, com a aproximação do Dia do Pantanal (12 de novembro) vale a pena lembrar que essa importante região vai além disso. Menor bioma do Brasil em extensão, ele tem papel fundamental no equilíbrio climático de diversas regiões do país: entre outros fatores, é uma reserva estratégica de água doce - proveniente das áreas mais altas no Cerrado -, protegendo o solo, auxiliando na regulação do clima e fornecendo água de boa qualidade para as pessoas e para a manutenção da biodiversidade.
 Localizado no Centro-oeste brasileiro, os mais de 150 mil km2 do Pantanal interligam a Amazônia, com o Cerrado e a Mata Atlântica, abrigando uma das maiores diversidades de aves do planeta (463). As aves migratórias também possuem relação muito próxima com o Pantanal, pois é ali que espécies como o tuiuiú (Jabiru mycteria), o colhereiro (Platalea ajaja), a águia-pescadora (Pandion haliaetus) e o talha-mar (Rynchops niger) param para se alimentar antes de continuar sua jornada. Sua localização, agregada ao ciclo das águas, com cheias e secas, oferece abundância de alimento para diversas espécies de aves migratórias de outras partes do mundo, mas também para muitos outros animais. Além da expressiva avifauna, no bioma já foram registradas 263 espécies de peixes, 132 de mamíferos, 113 de répteis e 41 de anfíbios.
 Para a consultora voluntária da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Gláucia Fernandes Seixas, o que mais chama a atenção no Pantanal é a abundância de grandes vertebrados e a presença de populações significativas de espécies ameaçadas de extinção em outros biomas. “A importância do Pantanal para a manutenção de populações viáveis de inúmeras espécies ameaçadas é incalculável, pois é nessa região que ocorre a reprodução de muitas espécies aquáticas e terrestres, locais e migratórias ameaças de extinção”, explica a doutora em Ecologia e Conservação da Natureza. Dentre elas, é possível destacar a onça-pintada (Panthera onca), a ariranha (Pteronura brasiliensis), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) e a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus). 

Espécies como o tuiuiú (Jabiru mycteriaparam no Pantanal para se alimentar antes de continuar sua jornada - Crédito: Ana Raquel S. Hernandes/Flickr CC
 Águas ameaçadas
 Apesar dessa importância e de ser a maior planície alagável do mundo, apenas 4,4% do Pantanal encontra-se protegido por unidades de conservação, entre os quais só 2,9% são de proteção integral, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. De acordo com Gláucia Seixas, que foi uma das fundadoras da Fundação Neotrópica do Brasil, o bioma sofre diversas pressões antrópicas.
 “Além da caça e do tráfico ilegal, outras grandes ameaças ao Pantanal são o desmatamento, os projetos de infraestrutura sem planejamento adequado e a poluição provenientes dos pesticidas utilizados nas áreas agrícolas”, destaca a pesquisadora. Desde 1997, ela desenvolve pesquisas com o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva). Essa espécie nativa pantaneira é amplamente comercializada como animal de estimação, proveniente da captura e venda ilegais.
Mudanças climáticas podem mudar o cenário

Poluição: ariranha "brinca" com uma garrafa plástica em um rio do Pantanal - Crédito: Paul Willians/Flickr CC
Os impactos das mudanças climáticas têm sido observados cada vez mais intensamente no Brasil. Entre eles, a crise hídrica em São Paulo; o processo de savanização da Amazônia, em que áreas enormes de floresta lentamente vão se transformando em campos abertos; o excesso de chuvas no Sul, causando destruição nas cidades; e a extensa estiagem no Nordeste, com acelerado processo de desertificação no Semiárido. No Pantanal, o efeito dessas alterações também já podem ser sentidos e a previsão é que elas se tornem cada vez mais presentes na vida dos moradores da região pantaneira se nada for feito.
 De acordo com a Base Científica das Mudanças Climáticas, publicada em 2013 pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, as projeções até 2100 indicam que as precipitações irão aumentar na época das cheias (outubro a março) e diminuir na seca (abril a setembro). Isso significa que as características desses períodos serão potencializadas. “O excesso de chuvas gerará erosão, enchentes e assoreamento. Já a seca intensa causará calor excessivo, interferindo no ciclo de vida das espécies, especialmente dos peixes, principal fonte de alimento de aves e outros animais”, ressalta André Ferretti, gerente de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário, instituição que já apoiou dezenas de pesquisas na região.
 Também atuando como coordenador geral do Observatório do clima, rede de ONGs e movimentos sociais que atuam na agenda climática brasileira, ele explica que essas alterações são muito graves. “O Pantanal faz parte de uma ecorregião que abrange as terras alagáveis do Chaco, o qual se espalha por áreas da Argentina, Paraguai e Bolívia. Por ser uma área úmida, toda essa região é muito sensível às mudanças climáticas, que podem desregular os ecossistemas, causando a extinção de espécies e causar impactos na vida de milhares de pessoas. Entre eles, problemas com fornecimento de água, saúde pública, inviabilização de culturas agrícolas e até impactos severos nas cidades”, conclui Ferretti.
Fonte: 
http://www.revistaecologico.com.br/noticia.php?id=2780 

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